zé-do-caixão-imagem-2
Duração de 00:15:32

23.06.2012

Entrevista: Zé do Caixão

De uma humildade admirável e grande simpatia, o cineasta José Mojica Marins nos concedeu uma entrevista exclusiva em que ele fala sobre o início de sua carreira, o sobrenatural, e seus novos projetos. Ao encarnar o terrível Zé do Caixão, ele rogou uma praga que quem não ouvir essa entrevista será almadiçoado… E saiba que praga de Zé do Caixão é pior que praga de mãe.

Essa com estava presente na primeira versão do website do Sombras da Realidade, em 2007, em Trabalho de Conclusão de Curso apresentado .
O Mestre do Horror

  Entrevista Exclusiva com ZÉ DO CAIXÃO para o Sombras da Realidade!


 Aumente o volume, respire fundo e preste bem atenção! Pois neste momento, você ouve a entrevista exclusiva do Sombras da Realidade com nada mais, nada menos, que ele, o Senhor das Trevas brasileiro, o Arauto do Inferno, Zé do Caixão!

Zé do Caixão: Oi! Você!!! Você!!! E todos vocês que estão assistindo o Sombras da Realidade. Prestem atenção e siga realmente a risca o que é para o seu bem, e o que não é. Porque de repente você pode ter uma praga, e com certeza a minha praga não é praga de mãe, mas é mais forte, é praga de Zé do Caixão. Então seguimos, começamos.
Sombras da Realidade: Noite sombria hoje, não é, Zé?Zé do Caixão: Hoje foi, realmente, uma noite muito corrida, né? Basta dizer que eu tive na prefeitura até agora pouco, né? Então você sabe que dentro dos órgãos realmente políticos, tem muita força oculta. Então eu to realmente com alguns espíritos querendo sair, e não sei quem eles querem pegar, mas vamos lá.

Sombras da Realidade: Bem, Zé, ou melhor, José Mojica Marins, o Brasil lhe conhece como Zé do Caixão, e esse é o apelido do seu personagem, alter ego, Josefel Zanatas…

Zé do Caixão: É, é o apelido de Josefel Zanatas, Zé do Caixão.

Sombras da Realidade: … Que no seu filme, à Meia Noite Levarei sua Alma, é o agente funerário do interior que acaba amaldiçoado pelo sobrenatural.

Zé do Caixão: Exatamente.

Sombras da Realidade: Como você lida com essa confusão entre o personagem e você, que as pessoas costumam fazer? 

Zé do Caixão: Olha, eu acredito que até os anos 93, foi barra, né? As pessoas me viam, se benziam, confundiam uma coisa com a outra. Mas aí eu fui pros Estados Unidos, fui homenageado. Eu aqui tive 50 revistas, realmente, em mais de 50 anos. E lá eu tive 50 capas de revista em um mês, né? Então de repente eu senti que o primeiro mundo me punha lá em cima, e quando eu voltei aqui consegui começar palestrar em faculdade e tal, e graças a toda essa criatividade minha, essa maneira de ser, eu acabei, hoje, se há uma confusão do que era no passado, era 90% que me confundia. Hoje é 90% que aceita José Mojica Marins, e 10% ainda tá confuso, quem é Zé do Caixão, se é José Mojica, ou não.

Sombras da Realidade:  O Zé do Caixão, pelo menos em sua estréia no cinema, é um materialista, ele não crê no sobrenatural…

Zé do Caixão: Pessoal chama de satanismo, é só um filme ali, não tem nada que ver, ele não crê em deus, mas não crê no diabo também, como ele não crê em espíritos, né? Então ele é um cara, eu diria, que é um ateu, mas é um ateu inteligente, que acredita em vida em outras galáxias, outros planetas, né, não só resumindo nesse satélite pequenino, experimental que é o nosso, né? Então eu acho que ele é até inteligente demais quando ele procura uma mulher que possa pensar como ele, para ele ter um filho realmente, que saia através da hereditariedade do sangue, do pensamento, que puxe o pai, ou a mãe, né? Então seria o filho perfeito, porque seria uma pessoa que não seria uma pessoa provida de sentimentos, nem do amor e nem do ódio. Uma pessoa que fosse justa, que visse o mundo de solidariedade que o  Zé procura. Você vê que na fita, Zé do Caixão sempre defendeu a pureza e a inocência das crianças, e vai continuar defendendo.

Sombras da Realidade: Você acredita que o Zé do Caixão, antes de todos o conhecerem, já existia no imaginário do povo brasileiro?

Zé do Caixão: Olha, há quem diz que Zé do Caixão existia há mais de 15 bilhões de anos. Antes, realmente, de nascer o novo universo. Que ele já vinha de lá. E isso já houve muita discussão, tal. E segundo muitos dizem que Zé do Caixão realmente escolheu um corpo nos anos, realmente, 30, para encarnar. E achou o corpo do cineasta José Mojica Marins, o ideal. E de repente encarnou, e, segundo a maioria, eu falo como Zé, como se eu tivesse descobrido, mas quem me descobriu foi o próprio Zé. E isso aí é mais um povo que lida com macumba, com sobrenatural, que tem essa ideologia. Mas eu acho que não. Eu acho que eu criei o personagem, um personagem que o povo brasileiro precisava ter, um personagem que não tem nada que ver com vampiro, Drácula, Frankenstein, lobisomens, múmia. É um personagem nosso, e isso aí eu vou me orgulhar sempre, criei um folclore em torno disso, nos temos um personagem fortíssimo, que pode concorrer com os europeus, asiáticos, americanos e todo mundo que vier pela frente.

Sombras da Realidade: O fenômeno “Zé do Caixão” é tipicamente um fenômeno da mídia, você concorda quando dizem que o personagem faz parte do folclore brasileiro?

Zé do Caixão: Faz. O problema da mídia, eu já por natureza sou sensacionalista, né? Então o sensacionalismo fez com que eu tivesse a mídia até hoje, estando comigo aonde quer que eu vou, eu tenho uma mídia muito grande, né? Mais pelo sensacionalismo. Mas sempre procurei no sensacionalismo, mostrar alguma coisa que os outros não tem coragem de mostrar. E eu, não tenho vergonha, não tenho medo de dizer que sou brasileiro, bato o pé, se é o terceiro mundo, que seja o terceiro mundo. Mas nos vamos chegar no primeiro mundo, devagarzinho, mas nós chegamos lá.

Sombras da Realidade: Zé, seja na cidade, seja no interior, você acredita que as pessoas ainda levam a sério o sobrenatural?

Zé do Caixão: Olha, muito mais do que você pensa, rapaz. Eu tive na Paraíba, há uns 15, 20 dias, fui pra Recife, e o que se fala no sobrenatural na Paraíba é fora de série. E eu tive que estar com os caras, numa boa, porque também a gente não pode desprezar as pessoas, tem que trazer elas pra coisa séria, mas sempre usando um vocabulário a altura. Então, Recife… Tocantins, também se fala. Tocantins, eu estive lá perto dos índios, até índios canibais, quase. E de repente os caras me tem lá, a lenda viva. Os caras me olharam, só faltavam ficar tudo se ajoelhando diante dos meus pés. Eles me vêem assim, com uma força sobrenatural muito grande. E eu não vou tirar essa coisa de ninguém, né. Não adianta, na hora que eu morrer, vão falar coisas fantásticas, que eu atravesso parede, que eu saio numa vassoura, voei, ih, o que vai dar aí de papo. Fazer o que, quem é que vai brecar isso? É o imaginário do povo brasileiro que tava carente de uma pessoa forte como o Zé do Caixão. 

Sombras da Realidade: Você poderia nos contar como foi o seu pesadelo que inspirou a criação do personagem?

Zé do Caixão: Isso aconteceu, o pesadelo, foi por volta do dia 10 a dia 11, né, de outubro de 63. Eu ia fazer um filme que chamava Geração Maldita. De repente, eu adormeci por volta das 11, 11 e meia, jantando, adormeci. E dentro do meu pesadelo vinha uma figura de preto, que me arrastava para um túnel, aonde tinha, realmente, a inscrição num túmulo, do meu nascimento e da minha morte. Eu não quis ver da morte. Do nascimento sim. Aí, de repente eu acordava, as 5 da manhã, com um pai de santo dizendo “Tirei o diabo dele”. Eu disse “não tirou diabo”. Eu não tava com diabo. Eu tava tendo uma visão de algo que tenho que fazer, que eu comecei muito novo a fazer, depois parei, e fiz outras fitas, e agora eu vou voltar a fazer o que eu realmente quero.

Vou fazer “A Meia-Noite levarei a sua Alma”. Aí já cheguei em São Paulo, acordei a minha secretária, já pus ela pra escrever o resumo da história, reuni os associados, ninguém quis fazer e eu não me preocupei não. Eu tava com uma casa, construindo com minha esposa, conversei, convenci ela a ir pra casa dos pais, . Vendi a casa, peguei o dinheirinho que eu tinha. Meu pai tinha uma poupancinha, também peguei, ele me emprestou, vendeu o carro, e aí eu consegui financiar a fita. Só que fiquei muito endividado, e antes que a fita fosse lançada, porque deu muito problema, começava a ditadura exatamente quando a fita minha ia lançar, 64. E aí foi um problema muito grande, né? E aí eu tive que vender a fita por 20% do que eu realmente havia gastado. Então eu ficava na porta do cinema Parque Palácio, deu, numa semana, 50 mil pessoas. Jô Soares escrevia na Última Hora aqui em São Paulo, “Ao Meio-Dia Levarei seu Dinheiro”. Mas era o contrário, eu tinha vendido e ficava contando as pessoas, pra saber o dinheiro que eu perdi na época, que a gente vendia por 5 anos, né? E souberam explorar os 5 anos bem. Então eu não fiquei rico por besteiras minhas, por estar endividado demais, e eu precisava pagar minhas dívidas e voltar a viver com a minha mulher.

Sombras da Realidade: Quais são seus projetos atuais em andamento, agora?

Zé do Caixão: Olha, antes de eu dar a saideira, eu já quero passar para os ouvintes, para quem está comunicando, o telefone 011, de São Paulo, para quem se interessar, eu devo ter uma oficina de cinema de 3 dias, até o final de outubro. Tem escola de arte dramática. Então o pessoal pode anotar aí o telefone é 33374440, né, 011 sempre, ou 68496434, São Paulo. 011 sempre, né? E aí o cara que quer fazer cinema, oficina, eu estou a disposição.
Porque agora o projeto é o seguinte. Eu to montando “A Encarnação do Demônio”

[veja a imagem abaixo], a maior fita da minha vida, que levou aí 41 anos para poder fazê-la, né? Então eu to em montagem, escolher as músicas, que será lançada no meu aniversário, dia 13 de março de 2008. E logo em seguida vem outra fita que eu terminei, que chama-se “A Praga”. Quatro meses depois do lançamento, ou seja, em setembro do ano que vem, será lançado “A Praga”.O Encarnação  é o último filme de Jesse Valadão, que veio a falecer no decorrer, até, das filmagens. E “A Praga” é a última fita de uma mulher que foi história no Brasil, como atriz, como diretora da antiga Tupi, Vanda Costa. Então eu tenho dois grandes monstros do nosso cinema, da nossa comunicação em duas fitas que lanço o ano que vem. E começo, no fim de outubro, “A Sacerdotisa”, um curta metragem de terror pesado, mas bem pesado. E de repente, se aparecer gente diferente, estranha, não importa de que estado seja, pode ser aí do Paraná, que eu tenho muito público no Paraná, né? Estarei a disposição, se a pessoa servir pra trabalhar, tanto homem como mulher, eu estarei contratando essas pessoas. Este são os projetos, realmente pra esse ano, e já to acertado com o Canal Brasil, vou fazer umas entrevistas com Marylin Manson, que vem aí, vou fazer com o Inri Cristo, vou fazer com o Paulo Coelho, e estaremos lançando no Canal Brasil, da televisão, no ano que vem. 

Sombras da Realidade: Zé do Caixão, muito obrigado pela sua entrevista. E agora com vocês… A praga da noite… Com vocês… ZÉ DO CAIXÃO!!!

Zé do Caixão: VOCÊ….. Que não prestigia nossa cultura, não prestigia os mais fracos, o nosso cinema em si. Que os vermes que habitam sua carcaça devorem todo o seu cérebro, e você continue sentindo dores da fornalha do inferno por toda a eternidade. Isto realmente vai acontecer, não é praga de mãe, mas é de Zé do Caixão. E acontece se você não apreciar nossa cultura…. Até lá. Até lá.

Tchau tchau!

Seja o primeiro a comentar